“É preciso ter a visão de querer ser”
O publicitário Roberto Justus é presidente do Grupo Newcomm, um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo, que reúne as empresas Y&R, Dez Brasil, Wunderman, Ação e Maestro. Entre seus principais clientes estão Bradesco, Casas Bahia, Colgate-Palmolive, Danone, Perdigão, Mercedes-Benz, Kraft Foods (Lacta), Vivo, Fundação Bienal, TAM, Ford, Banco Safra, entre outros. Em 2005, Roberto Justus foi um dos três indicados para o prêmio "Caboré", como melhor empresário de 2004. Durante o 7º Fórum de Gestão de Pessoas, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Rio Grande do Sul (ABRH-RS), no início de maio, em Porto Alegre, Justus disse que o líder precisa estar atento às novas tendências, citando como exemplo a internet. Segundo ele, o contato social está sendo minimizado, resultado de outras formas de comunicação que não exigem o contato físico. Em entrevista à Best Home, o empresário destacou que para ser um líder de sucesso é preciso saber identificar erros na empresa e ter competitividade dentro de limites que respeitem os outros.
Best Home: Na sua opinião, que características é preciso ter para ser um líder de sucesso?
Roberto Justus: É ter paixão pelo que faz, foco e objetivo claros. As pessoas se perdem tentando ser aquilo que não estavam preparados para ser, ou errando na escolha de sua carreira, ou investindo em um negócio que não tem futuro. Então, ter foco, saber investir na coisa certa, saber no que você pode ter sucesso, são itens importantes. Hoje em dia no Brasil, infelizmente - eu digo infelizmente porque deveria ser natural, mas não é - a ética na condução dos negócios, na conduta pessoal, transparência, franqueza, são valores intangíveis, mas que são tão importantes quanto os tangíveis. Nós, que trabalhamos em propaganda, vendemos a coisa mais intangível que tem, que é a idéia. Nas pessoas que contrato, busco olhar muito para o caráter, para a capacidade que ela tem de convivência com as outras pessoas, capacidade que tem para o trabalho em grupo. A empresa é uma engrenagem de pessoas que funciona. Sempre falo que respeito não se impõe, se conquista. E a forma de se conduzir um time ao sucesso é conquistando o respeito das pessoas para se conseguir o que elas têm de melhor.
Best Home: Qual é o perfil do líder?
Roberto Justus: Quando falo em líder as pessoas acham que é o diretor ou o presidente da empresa. É possível ser líder de uma seção, de um departamento, enfim, sempre se tem uma posição em que é preciso tomar uma decisão, e é preciso saber tomar essas decisões. Um dos perfis que considero mais importante é o conhecimento que a pessoa tem que ter. Uma visão significativa sempre antecede uma realização significativa. É preciso ter a visão de querer ser. Ter um objetivo. Isso não quer dizer que você vai chegar lá, poucas pessoas chegam. Mas só chegaram, as que tiveram esta visão. O brasileiro, infelizmente, até porque tem formação acadêmica um pouco restrita, sempre espera que o outro faça alguma coisa. Nós temos esta mentalidade. No entanto, somos mais criativos, temos mais jogo de cintura, além de uma série de aspectos interessantes, comparando a mão-de-obra brasileira com a internacional. Até 1994, quando começou o Plano Real, era o País da inflação. Conviver num ambiente assim, para um empresário, é difícil. É preciso ser muito criativo.
Best Home: O que é preciso para mudar esta mentalidade do brasileiro?
Roberto Justus: Eu acredito que já mudou muito. O brasileiro não fazia planejamento a longo prazo, porque era um País com inflação. As empresas não planejavam mais do que seis meses. Os americanos e europeus vinham para cá lançar algum produto e o payback para eles era 10 anos. O brasileiro aprendeu a pensar a longo prazo. O País começa a poder se endividar. "Mas como se endividar?" Isso é bom, não é ruim. Porque o povo não consegue ser empreendedor sem isso. Ele precisa se endividar várias vezes, e saber fazer um plano de médio e longo prazo para poder pagar essa dívida. O brasileiro já mudou essa mentalidade e está se inserindo num contexto muito diferente em termos de qualidade de mão-de-obra.
Best Home: Como funciona, na prática, o exercício da liderança?
Roberto Justus: É preciso saber ouvir, que é diferente de saber escutar; dar atenção às pessoas, estar presente; se mostrar disponível é uma das coisas mais importantes. A comunicação na empresa é muito importante. O funcionário deve saber qual é a missão da empresa, para onde ela quer ir, os objetivos, as metas, os valores. Isso é passado aos nossos funcionários o tempo todo. Quando você está na função de liderar algum processo, a responsabilidade é coletiva. A empresa não depende só de mim, tento me tornar desnecessário. Quanto menos a empresa precisar de mim, melhor. Sentirei que as pessoas estão cumprindo as suas funções. Aliás, elas sabem muito melhor que eu, muitas coisas.
Best Home: É difícil encontrar os profissionais ideais? O que precisa ter este profissional?
Roberto Justus: É difícil você encontrar as pessoas que são fora de série. Tem muita gente boa, mas um cara fora de série, que faz a diferença na empresa, que faz a empresa se destacar no mercado pela sua atuação, pelo seu estilo, pelas idéias, é difícil. É preciso ter uma macrovisão de tudo o que acontece. A pessoa precisa saber sobre o negócio dela. Pergunto para as pessoas com quem trabalho: "qual é o faturamento da propaganda brasileira?" É preciso pensar “fora da caixa”, pensar mais do aquilo que você está trabalhando, ter interesse maior no que está acontecendo em volta.
Best Home: O que é preciso ter para poder prestar um serviço de qualidade? Como manter clientes satisfeitos?
Roberto Justus: O diferencial é ser pertinente. Não se promete mais do que se pode cumprir e nunca se deixa de cumprir o que prometeu. A verdade na relação é fundamental. Se um cliente perguntar alguma coisa e eu não souber, eu vou falar que não sei. Eu não sou melhor do que ninguém, saber recomendar não fazer, saber dizer que não sabe é fundamental. Precisamos prestar serviço adequado às necessidades de cada cliente. A palavra chave é pertinência, saber entregar o que o cliente precisa e na hora em que ele precisa.
Best Home: O programa "O Aprendiz" se destacou na programação nacional e o tornou conhecido em todo o País. Que avaliação o senhor faz do programa?
Roberto Justus: O programa é um laboratório de testes de seres humanos num ambiente sob pressão. É uma forma de contratar que nós não temos. Imagina se além de fazer a entrevista, olhar o currículo, e ver a impressão que se tem da pessoa, nós pudéssemos fazer um teste de como ela se comporta vendendo, comprando, administrando ou investindo em alguma coisa. Vou colocar essa pessoa dois meses e meio na rua, trabalhando sob pressão, liderando outras pessoas. Todo esse exercício que faço com eles é riquíssimo para uma contratação. E as pessoas de recursos humanos não têm condições de viver essa experiência verdadeira que a gente vive. O que trago do programa é um aprendizado das relações humanas, dentro de um cenário que não tenho no dia-a-dia. É um realitty show, mas esqueço que estou sendo gravado. É muito verdadeiro. No dia-a-dia, as tarefas vão de um extremo ao outro, para ver como eles reagem nas mais diversas situações. Mas são situações verdadeiras.
Best Home: Por serem situações reais, o senhor acredita que as atividades apresentadas podem estimular o empreendedorismo?
Roberto Justus: Para muitos jovens empreendedores que estão começando nas empresas, muitas situações que foram vistas são de uma riqueza muito grande. Eu tenho encontrado pessoas que dizem que o programa ajudou como incentivo, como experiência que não tinha sido vista antes, ou antecipando uma experiência. |