EDIÇÃO DO MÊS RESPONSABILIDADE SOCIAL


Ano 3
Edição 9
Maio/Junho/Julho
2006


Uma partida pela cidadania

Ele ainda é lembrado como ídolo no futebol, mesmo tendo deixado o esporte em 1999. Começou fazendo história no Internacional de Porto Alegre, atingindo seu prestígio nacional como capitão da Seleção Brasileira na Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994. No exterior também foi ídolo, jogou em times da Itália, Alemanha e no Júbilo Iwata, no Japão. Mesmo tendo praticado ações sociais no decorrer da sua carreira, foi depois de sua atuação efetiva no futebol profissional, que Dunga pôde focar seu trabalho de cidadão responsável. E foi justamente para separar o atleta do Dunga, que, em 2000, criou o Instituto Dunga de Desenvolvimento do Cidadão (IDDC).

"Queremos mostrar que chega de coitadinhos, chega de vítimas". Esta é a frase que norteia o discurso de Dunga quando explica suas razões para atuar em tantos projetos sociais que realiza pelo Instituto. "Para mim, realizar trabalho voluntário não é só ajudar pessoas que não têm o que comer; é se doar com seu talento, com sua criatividade, com sua profissão, sem remuneração, a favor do bem comum, do bem ao próximo. Quando voltei para o Brasil, após passar um tempo jogando fora, comecei a fazer trabalho voluntário com o Hospital do Câncer Infantil, e com a própria Associação Cristã de Moços (ACM-RS), com quem tenho uma ligação muito forte, já que é a nossa parceira no Projeto Esporte Clube Cidadão. Também busquei jogadores, como o Tinga, e pessoas da dupla Gre-Nal, para fazerem algumas atuações específicas", explica.

A parceria com a ACM-RS, que resulta no trabalho do Esporte Clube Cidadão, vem desde 2002 atuando na Vila Restinga, em Porto Alegre. É lá que crianças e adolescentes de 6 a 18 anos passam meio período do dia, inverso ao turno que vão para a escola, uma obrigatoriedade para integrar o grupo. Neste tempo participam de atividades esportivas, com noções de diversos esportes. Entretanto, este não é o principal objetivo, conforme explica Dunga, "não se trata apenas da mesmice de tirar da rua e dar comida. Trabalhamos na formação do cidadão. Ensinamos princípios básicos, como educação, respeito, dignidade, confiança, honestidade e transparência. Fornecemos comida, higiene, cursos de profissionalização. O esporte é uma isca, uma atração", informa. Atualmente, cerca de 400 crianças são atendidas.

Junto às escolas, os técnicos do Esporte Clube Cidadão acompanham o desenvolvimento das crianças, verificando suas deficiências e necessidades. Além da freqüência escolar, é preciso ter responsabilidade perante o Projeto, com participação diária e comprometimento. As famílias das crianças também têm vez. Elas podem participar de cursos, como por exemplo, de culinária, auxiliar de cozinha e confeitaria.

"Queremos que elas entendam que dificuldades e problemas todos têm na vida, a questão é resolvê-los. Para isso, levamos as crianças até a universidade para que vejam quanto tempo uma pessoa investe nela própria para ser alguém na vida. Queremos acabar com esta história de que se alguém tem um carro, foi porque roubou ou deu sorte, mas nunca porque trabalhou para isso. Levamos as crianças a teatros, museus, cinemas, lanchonetes", conta Dunga.

O Projeto tem também o cuidado de não permitir que uma criança chegue aos 17 ou 18 anos de idade sem encaminhamento. "Se não dermos um curso de capacitação, essa pessoa fica frustrada. Temos um projeto pronto com a Associação dos Arquitetos de Porto Alegre, um prédio onde teremos diversos tipos de cursos especialmente para tratar desta demanda", completa.

Para ser voluntário deste Projeto é preciso se inscrever na própria ACM. Dunga apresenta posicionamento firme quanto ao interesse de voluntários em participar. "Queremos pessoas que queiram contribuir, não que queiram pagar um pecado ou sentir-se menos culpadas. Queremos pessoas que realmente se envolvam com as crianças".

Quanto aos demais projetos do Instituto Dunga, ocorrem conforme as necessidades surgem. "Quando alguém me procura para solicitar algo, pergunto o que a pessoa precisa e busco informações para ver se a necessidade realmente existe. Muitas vezes colaboramos com pequenos projetos. As pessoas pensam que é preciso várias coisas para poder ajudar. Tem vezes que damos uma bola para ajudar em um leilão, ou uma chuteira, uma camisa, comparecemos a um evento, e isso já gera muitos resultados", explica.

Um destes projetos foi realizado pelo Instituto Dunga junto à FASE, antiga Febem-RS, que contou com os seguintes parceiros: Nike, em conjunto com fábricas de materiais esportivos do Rio Grande do Sul; e Sport Club Trianon, equipe de futebol solidária liderada por Nei Oliveira. Os menores receberam material de pintura para realizar atividades, calçados e aquecimento a gás para os chuveiros. "Eles precisam de dignidade e, acima de tudo, de atenção", declara. Dunga prefere falar em "Amigos do Dunga" ao invés de instituto, já que são diversas pessoas e empresas que colaboram conforme podem. Recentemente, junto com parceiros de Novo Hamburgo, foram distribuídos cerca de 300 pares de chuteiras para escolas que faziam campeonatos.